O Enigma de Kaspar
Hauser
Ficha Técnica
Ü Título
Original: Jeder für sich und Gott gegen alle
Ü
Direção: Werner Herzog.
Ü Origem: Alemanha
Ü Duração: 110 minutos.
Ü Origem: Alemanha
Ü Duração: 110 minutos.
SINOPSE:
(por: Marcelo Maia)
O Enigma de Kaspar Hauser foi produzido em 1974 na, então, Alemanha Ocidental. O filme, baseado em fatos reais, conta
a história de um jovem que viveu em cativeiro desde a infância, sem ter
qualquer contato com outras pessoas ou mesmo animais.
Após
ser liberto e abandonado em uma praça de Nuremberg, em 1828, Kaspar Hauser
passa a ter contato com outros seres humanos e com o mundo exterior. Aos
poucos, o ex-cativo vai se adaptando ao modo de vida daquela cidade, se
tornando um ser social, ao mesmo tempo em que critica e questiona alguns
costumes do lugar.
A história de Kaspar Hauser nos leva a questionar se
realmente há uma racionalidade comum a todos os seres humanos ou se nossas
semelhanças se consistem apenas em nossas necessidades físicas.
ANÁLISE LITERÁRIA (COM SPOILERS)
(por Marcelo Maia)
Há
uma fábula indiana que conta sobre uma tigresa prenhe que, devido ao esforço realizado
quando atacava um rebanho de cabras, acaba por provocar o nascimento prematuro
de seu filhote e em seguida veio a falecer. As cabras, que haviam se espalhado
durante o ataque, ao retornarem encontram ali o tigrinho recém-nascido e
desamparado. Vendo tal cena, elas se compadecem e seguindo seus instintos
maternais adotam o felino e o criam como se ele fosse uma delas; ensinando o a
berrar e se alimentar de grama. Enfim, o tigre cresce acreditando ser um
cabrito. E vive assim até o dia em que o rebanho é atacado por outro tigre que,
ao ver seu semelhante ali no meio de suas presas, o leva á força para o seu
covil. Lá, o tigre que fora criado pelas cabras vai descobrindo sua real
natureza. Aprende a rugir, a comer carne e a caçar outros animais.
Essa fábula é contada pelos hindus
para ilustrar a descoberta do verdadeiro “eu” pelo ser humano. No hinduísmo, o
termo “ verdadeiro eu” se refere á uma
consciência transcendental. Num processo de socialização, tal termo pode muito
bem ser usado para expressar a
transformação de um indivíduo em um ser social. É quando ele passa a se
identificar com o meio em que vive, descobrindo assim sua identidade humana.
No filme “O Enigma de Kaspar Hauser”, ao
invés de um tigre, um homem começa a descobrir suas capacidades, através do
contato com outros seres humanos. Enquanto o tigre da fábula acreditava ser um
cabrito por ter convivido, desde seu nascimento, com cabras, Kaspar Hauser
desconhece qualquer tipo de convivência com outros seres vivos, tendo como
companhia apenas a miniatura de um cavalo.
Esse homem não sabia andar e não
pronunciava mais que uma frase, que lhe fora ensinada pouco antes de ser
liberto do cativeiro. A ausência de um contato com outros seres humanos impediu
que Kaspar desenvolvesse tais habilidades.
De acordo com Rousseau(1978) “o homem
no estado de natureza quer somente aquilo que o rodeia, porque ele é desprovido da imaginação necessária para desenvolver um desejo
que ele não percebe. Suas vontades não passam de suas necessidades físicas, pois os
únicos bens que ele conhece no universo são a alimentação, uma fêmea e o
repouso".
Nos primórdios, o homem primitivo no
seu estado de natureza, teve como educadoras suas necessidades e suas
sensações. A necessidade de se alimentar fez com que o homem primitivo
descobrisse e desenvolvesse sua capacidade de se locomover. Para se proteger
dos fenômenos da natureza e de outros animais ele precisou procurar um abrigo e
diante da ameaça de um ataque teve que aprender a emitir sons para conseguir
ajuda. A partir de então, os aprendizados de uma geração foram passando para a
geração seguinte, e a necessidade deixa de ser a única fonte de educação
humana. Como auxiliares no processo de educação aparecem a tradição, o exemplo,
e posteriormente as crenças religiosas e os interesses sociais de cada grupo e
também pretensões individuais de seus líderes.
Kaspar Hauser, ao contrário do homem
primitivo, não sentiu necessidade de se locomover ou de emitir sons para que
seus desejos naturais fossem atendidos, pois já possuía abrigo e
alimentação. A necessidade de
socialização também não havia no jovem cativo, pois ele, assim como os homens
da “caverna de Platão” , acreditava que tudo o que existia era aquele calabouço
e as poucas coisas que tinham ali. O único interesse que possuía era o de se
alimentar, defecar, urinar e dormir. Ou seja, durante muito tempo, viveu em
pleno estado de natureza.
Nos seus primeiros momentos no campo e
na cidade, Kaspar tem os olhos ofuscados pela realidade, pois, assim como o
homem que se liberta dos grilhões na Caverna de Platão e descobre o mundo lá
fora, ele sente medo e admiração diante da nova realidade. É desta forma que qualquer
ser humano se sente ao se defrontar com um macrocosmo com dimensões
incrivelmente maiores que seu microcosmo.
Para que o choque entre o micro e o
macrocosmo não seja tão violento é necessário que haja um processo de
socialização do indivíduo desde seus primeiros anos de vida. Os primeiros
contatos de um indivíduo com a vida social se inicia no ambiente familiar. É
ali que ele começa a ser preparado para se tornar um “animal social e político”,
como Aristóteles bem definiu o homem.
Ainda citando Aristóteles, ele diz que
o homem que vive só ou é um deus ou uma besta. O personagem principal do filme
talvez não se compare nem a uma besta, pois até os animais precisam de contato
com outros seres, semelhantes ou não, para que obtenham uma identidade comum a
outros. Essa falta de contato com outros
seres e a não preparação para a vida social causa um choque violento
entre a minúscula noção de realidade de Kaspar e a vida social em Nuremberg.
Aos poucos, Kaspar vai descobrindo
suas capacidades humanas individuais e sociais. Descobertas que se iniciam
através de observações dos atos das outras pessoas e das imitações destes atos.
Assim, é o princípio da socialização de todo ser humano. Para Piaget, o homem
nasce com as condições necessárias para ser completo, mas precisa de um
processo de socialização.
Outro fator essencial para a
socialização é a educação. O conceito de educar, muitas vezes se confunde com o
conceito de socializar. Mas, assim como a convivência, a observação e a
imitação, o processo de educar é apenas uma das etapa da socialização. Educar é o ato de
ensinar e aprender, quer seja na forma oral, escrita ou prática.
Os primeiros contatos de Kaspar Hauser
com a educação se inicia na casa da primeira família que o acolhe. Lá, ele
aprende como se alimentar usando talheres, a noção de vazio e cheio, a se
banhar e conhecer as palavras que dão nome ás partes de seu corpo.
A educação tem também como função,
desde o período clássico da filosofia grega, despertar no homem seu lado
crítico e questionador. Era esse o método que Sócrates usava para despertar o
conhecimento em seus discípulos e nos demais que com ele dialogavam ou
debatiam. Através de perguntas, o filósofo fazia seus interlocutores se
contradizerem e, em seguida, descobriam dentro de si uma verdade diferente
daquela que possuíam anteriormente. Para Sócrates a vida só vale a pena se for
questionada.
Kaspar Hauser, enquanto vai
sendo educado e se integrando á sociedade, passa a perceber que a convivência
no meio social, tem seus prós e contras. Por um lado, ele entra em contato com
o afeto, o conforto, a amizade e a arte. Mas se depara também com os males da
sociedade como ganância, preconceitos, jogos de interesse, entre outros. Ele, então, passa a
questionar e a criticar os costumes da cidade, como a religião e o papel da
mulher no meio social. Em um trecho do filme, chega a dizer que vivia melhor
quando estava enclausurado, pois não
convivia com a maldade. Esse trecho do filme nos remete novamente a Rousseau,
que em sua teoria sobre a natureza humana diz que todo homem nasce bom e é
corrompido pela sociedade. Ao contrário de Hobbes, que afirmava que os homens
são maus por natureza.
Durante o filme, vão sendo colocadas
muitas outras questões sobre o estado de natureza do ser humano. Há duas que,
com certeza vão intrigar os espectadores
mais atentos:
A primeira questão se refere á relação
do ser humano com a arte, em especial a música. Kaspar, ao ouvir música pela
primeira vez, se emociona e posteriormente se interessa em aprender a tocar
piano. Seria então, o gosto pela arte, algo tão natural do homem que se
desperta no primeiro contato entre eles?
A segunda questão é polêmica, pois se refere a relação entre o ser
humano e a crença no sobrenatural. Kaspar não tem nenhuma noção de Deus ou de
qualquer outro ser sobrenatural. Esse trecho do filme estaria pondo em xeque a
afirmação de que a crença e a
adoração a um ser superior e sobrenatural é natural do ser humano, e não
um meio de suprir as necessidades primárias e/ou secundárias de nossa
existência?
Em suma, “ O Enigma de Kaspar Hauser”
é um filme que deve ser assistido com atenção, para que o espectador possa
assim refletir e questionar sobre o homem em seu estado de natureza e o
processo de socialização de um indivíduo.
BIBLIOGRAFIA
ROUSSEAU,
Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os
homens. * São Paulo: Abril Cultural, 1978.
HOBBES, T.
Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2008
ZIMMER,H.
Filosofias da Índia. Tradução por Nilton Almeida Silva e Cláudia Giovani Bozza.
São Paulo: Palas Athena, 2008.
E-REFERÊNCIAS
PIAGET PARA
PRINCIPIANTES (Disponível em: http://books.google.com.br/books?id=wiytccfufOcC&pg=PA84&lpg=PA84&dq=Piaget+Socializa%C3%A7%C3%A3o&source=bl&ots=OZLcyoGCt3&sig=bWnj1SiJhJ1RPg9M1ZrPHWJaDX4&hl=pt-BR&sa=X&ei=ul65UJmyLIr-8ATm7IHgBg&ved=0CHYQ6AEwCA#v=onepage&q=Piaget%20Socializa%C3%A7%C3%A3o&f=false
Acesso em 30/Nov/2012 ás 23:42)
