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sábado, 9 de fevereiro de 2013

The Wall

                            


●Título Original: The Wall
●Direção: Alan Parker
●Origem: Reino Unido
●Ano de Lançamento: 1982
●Duração: 95 minutos


THE  WALL
Uma fuga ou um meio de enfrentar a náusea e a nonsense da existência?

SINOPSE
               por Marcelo Maia

     O filme The Wall, é um musical, baseado no álbum homônimo da banda Pink Floyd. O roteiro, criado pelo baixista e vocalista Roger Water, conta a vida de um roqueiro que se tranca em uma prisão psicológica criada por suas desilusões e perdas no decorrer de sua vida. Pink, o protagonista do filme, cria uma barreira entre ele e a sociedade, se tornando um ser triste e solitário, mesmo casado, famoso, rico e tendo sempre ao seu lado uma equipe profissional e sendo adorado pelos seus fãs.
O “muro” de Pink é construído por momentos marcantes de sua vida, como a morte do pai, a convivência com uma mãe super protetora, a vida escolar, o casamento e a fama. Um ótimo filme para quem gosta de música e filosofia
          
COMENTÁRIO
                         por Marcelo Maia
            

          Quando um homem entra em conflito com a existência e percebe a nonsense da vida, o que lhe resta? Negar essa existência e esperar uma vida melhor no além, acreditar que um dia encontrará um sentido para a vida, aceitar o absurdo de uma vida que o levará ao nada ou antecipar o fim dessa existência, se matando? Seria o suicídio, uma solução para o Absurdo? De acordo com Camus, em “O Mito de Sísifo”, solução para o Absurdo não é o suicídio, e sim a revolta. Mas como agir ao se revoltar com a existência, sem se matar? Na ópera-rock “The Wall”, o protagonista Pink, um astro da música se revolta com a existência e tenta fugir dela se isolando do mundo exterior . Mas esse isolamento não o leva apenas a se trancar em casa e a se afastar totalmente da sociedade. Pink se tranca em um mundo que ele cria em sua mente, tentando se afastar de si mesmo. Para se proteger em seu mundo, ele começa a construir um “muro” que o separa mentalmente do convívio social e de sua condição atual. No entanto, os tijolos que formam “o muro (The Wall)” de Pink, são as mesmas peças que construíram aquele homem angustiado e lhe revelaram uma existência cheia de horrores. Essas peças ou tijolos são na verdade, os acontecimentos de sua vida. A morte do pai na Segunda Guerra Mundial, a proteção em excesso por parte da mãe, um casamento entediante que leva sua esposa a o trair e, principalmente, sua insatisfação com a condição da existência humana.
            Em “A Náusea”, de Jean Paul Sartre, o personagem Antoine Roquentin passa a sentir uma aversão à existência humana e, esse niilismo o leva a beira da loucura. Ele constata que a vida em si não possui uma essência, e que esta só é obtida através de artifícios e ilusões. Em The Wall, Pink chega à mesma conclusão de Antoine, mas percebe que todos os artifícios usados para dar sentido e preencher o vazio da vida, a tornam mais ainda sem sentido e são tijolos que vão aumentar o seu muro.
      
            De acordo com Albert Camus, o sentimento de absurdo na existência humana é fundamentado na incompatibilidade entre os desejos do homem e sua quase nula capacidade de realiza-los.  Queremos um mundo justo, mas não é isso que temos, afinal o conceito de justiça de uma pessoa ou grupo não é o mesmo do outro. Além da justiça, estamos sempre á procura de algo, sempre querendo mais e mais. E muitas vezes, nem sabemos o quê.  Tudo o que queremos é preencher o vazio da existência. É isso que Pink quer saber quando, em um dos momentos do filme, pergunta: “O que devemos usar para preencher esses espaços vazios?”.  Mas, como eu disse no parágrafo acima, Pink chega á conclusão que qualquer artifício usado para preencher o vazio, aumenta mais ainda o seu muro e sua aversão á existência.
            Sentimos bem quando obtemos algo que desejamos (um emprego, um bem material, uma vaga na Faculdade, começamos um namoro, o nascimento de um filho, etc) e nos sentimos mal quando perdemos algo que amamos ou precisamos (um ente querido que morre, um bem material que estraga ou é roubado, um relacionamento que termina, a demissão de um emprego, etc). Sentimo-nos mal também, quando adquirimos o que não queremos ou temos dificuldade em nos livrar de algo que nos incomoda (uma doença, um vício, um vizinho barulhento, um emprego desagradável, um relacionamento desgastado), afinal nem sempre é fácil rejeitar ou dar um basta numa situação.
Ao sentimento de "bem-estar", damos o nome de felicidade e chamamos de infelicidade, o sentimento de "mal-estar". Porém, tanto a felicidade quanto a infelicidade são sentimentos momentâneos. Dizer que alguém é feliz é tão fantasioso quanto acreditar que alguém é infeliz. Tanto a felicidade quanto a infelicidade depende de uma realização (o bem para uma e o mal para outra). Afinal, não são apenas sonhos que se realizam; pesadelos também. Como esses sentimentos de realização não ocorrem a todo o momento, o ser humano se depara com outro sentimento, que é o vazio. O vazio é, absurdamente, o sentimento sem sentido (nonsense) e é dele que Pink tenta fugir.
O protagonista de The Wall prefere viver num mundo sombrio e atormentado pelos fantasmas de seu passado após constatar que nada preenche o vazio da existência. Para ele, a realidade atual com riquezas, fama e luxúria, é muito pior que o seu passado de dor, onde convivia com as dificuldades de um país tentando se reerguer após a guerra, a falta de uma figura paterna em sua criação, as dificuldades financeiras e a educação numa escola, onde professores tiranos aliviavam suas dores emocionais castigando e zombando dos alunos. Mas, se no passado ele convivia com o horror, pelo menos tinha o sonho de que um dia seria feliz e acreditava que para isso bastava ter uma vida diferente quando se tornasse adulto. Porém ao alcançar o sucesso, se tornar rico e conquistar a mulher amada, Pink percebe que a realização de seus sonhos não preenchem seu vazio existencial e passa a procurar outros artifícios, como drogas, para tentar ao menos disfarçar sua dor perante a realidade. Ao contrário de quando era criança, ele não tem mais sonhos e nem esperança de que encontrará um sentido para a vida. “The child has grown, the dream has gone, and I have become comfortably numb (A criança cresceu, o sonho acabou e eu me tornei confortavelmente entorpecido- trecho de Comfortably Numb, uma das canções da Ópera Rock e do Álbum The Wall)”.
Por que estamos buscando constantemente algo que nos dê sentido e que nos satisfaça, mas sempre voltamos ao vazio? Essa resposta foi respondida, indiretamente, por Aristóteles em sua Metafísica. Como todos os seres (com exceção da Causa Primeira), o ser humano também é um ato (forma ou condição atual, o que é) em potência (transformação,vir a ser), sendo assim ele sempre vai sentir necessidade de alterar sua condição atual. De acordo com Nietzsche, “a vida aspira a um sentimento máximo de potência”. Porém, a impossibilidade de alcançar o nível desejado de potência, gera angústias e aflições na pessoa e ela passa a negar a realidade e afirma outro mundo que acredita que a satisfará.
Pink, ao constatar sua impossibilidade de alcançar seu nível de potência, nega sua condição atual e se afirma no seu mundo passado que o atormenta, mas também lhe permite almejar mais potência. Porém nem sempre lhe é permitido viver no seu microcosmo sombrio e confortável. Quando é extremamente necessário, ele atravessa seu muro e se depara com o macrocosmo, do qual ele sente náuseas. Para enfrentar a realidade ele se despe daquele disfarce de homem frágil e derrotado pela existência e se protege usando o uniforme do preconceito e da intolerância, acreditando que dessa forma conseguirá escapar da nonsense da vida e finalmente realizar sua potência máxima. Mas acaba constatando que esse sentimento de superioridade o torna um ser mais inferior ainda. Em seus delírios, ele se torna um nazista e comete várias atrocidades, mas ao retornar a realidade se encontra em uma condição pior que a anterior. Muito mais angustiado e vencido, ele aparece em um banheiro apoiado no vaso sanitário. Ou seja, agora, usando uma linguagem chula, ele se sente como a própria merda. Porém agora ele não quer mais fugir da realidade e chega á conclusão de que precisa sair de seu mundo tenebroso e para isso é necessário um auto julgamento.
Ao fazer uma reflexão sobre sua vida, Pink constata que ele é o principal responsável pela situação em que vive e se a vida e as pessoas lhe causaram sofrimento, ele foi, também, responsável pelo sofrimento de outros. O auto julgamento o leva a concluir que ele é o culpado, e como tal precisa ser punido. Sua sentença é destruir o muro que o separa de seus semelhantes e encarar o Absurdo da realidade.
Essa punição ,na verdade, é a revolta, a solução contra o Absurdo, proposta por Camus em “O Mito de Sísifo”. É o homem diante de si mesmo e de sua própria escuridão, é o contrário da renúncia e do suicídio. É viver o máximo que a natureza nos permitir, estando ciente de nossas limitações. Só assim, é possível suportar e compreender esse conjunto de sentimentos sem sentido chamado VIDA.


FONTES CONSULTADAS


 CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Tradução de Ari Roitman e Paulina Watch. Rio de Janeiro. Record, 2008
SARTRE, Jean Paul. A Náusea. Tradução de Rita Braga. São Paulo. Ediouro, 2006.
FERREIRA, Amauri. Introdução á Filosofia de Nietzsche. (Disponível em: http://www.amauriferreira.blogspot.com/. Acesso em O7 de Fevereiro de 2013 ás 22h00min)