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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Kaspar Hauser e o Homem Natural



           O Enigma de Kaspar Hauser

Ficha Técnica

Ü Título Original: Jeder für sich und Gott gegen alle
Ü Direção: Werner Herzog.
Ü Origem: Alemanha
Ü Duração: 110 minutos.




SINOPSE:
                                                      (por: Marcelo Maia)


              O Enigma de Kaspar Hauser foi produzido em 1974 na, então, Alemanha Ocidental. O filme, baseado em fatos reais, conta a história de um jovem que viveu em cativeiro desde a infância, sem ter qualquer contato com outras pessoas ou mesmo animais.
            Após ser liberto e abandonado em uma praça de Nuremberg, em 1828, Kaspar Hauser passa a ter contato com outros seres humanos e com o mundo exterior. Aos poucos, o ex-cativo vai se adaptando ao modo de vida daquela cidade, se tornando um ser social, ao mesmo tempo em que critica e questiona alguns costumes do lugar.
            A história de Kaspar Hauser nos leva a questionar se realmente há uma racionalidade comum a todos os seres humanos ou se nossas semelhanças se consistem apenas em nossas necessidades físicas.



ANÁLISE LITERÁRIA (COM SPOILERS)
(por Marcelo Maia)

        Há uma fábula indiana que conta sobre uma tigresa prenhe que, devido ao esforço realizado quando atacava um rebanho de cabras, acaba por provocar o nascimento prematuro de seu filhote e em seguida veio a falecer. As cabras, que haviam se espalhado durante o ataque, ao retornarem encontram ali o tigrinho recém-nascido e desamparado. Vendo tal cena, elas se compadecem e seguindo seus instintos maternais adotam o felino e o criam como se ele fosse uma delas; ensinando o a berrar e se alimentar de grama. Enfim, o tigre cresce acreditando ser um cabrito. E vive assim até o dia em que o rebanho é atacado por outro tigre que, ao ver seu semelhante ali no meio de suas presas, o leva á força para o seu covil. Lá, o tigre que fora criado pelas cabras vai descobrindo sua real natureza. Aprende a rugir, a comer carne e a caçar outros animais.
Essa fábula é contada pelos hindus para ilustrar a descoberta do verdadeiro “eu” pelo ser humano. No hinduísmo, o termo “ verdadeiro eu”  se refere á uma consciência transcendental. Num processo de socialização, tal termo pode muito bem ser usado para expressar a  transformação de um indivíduo em um ser social. É quando ele passa a se identificar com o meio em que vive, descobrindo assim sua identidade humana.
No filme “O Enigma de Kaspar Hauser”, ao invés de um tigre, um homem começa a descobrir suas capacidades, através do contato com outros seres humanos. Enquanto o tigre da fábula acreditava ser um cabrito por ter convivido, desde seu nascimento, com cabras, Kaspar Hauser desconhece qualquer tipo de convivência com outros seres vivos, tendo como companhia apenas a miniatura de um cavalo.
Esse homem não sabia andar e não pronunciava mais que uma frase, que lhe fora ensinada pouco antes de ser liberto do cativeiro. A ausência de um contato com outros seres humanos impediu que Kaspar desenvolvesse tais habilidades.
De acordo com Rousseau(1978) “o homem no estado de natureza quer somente aquilo que o rodeia, porque ele é desprovido da imaginação necessária para desenvolver um desejo que ele não percebe. Suas vontades não passam de suas necessidades físicas, pois os únicos bens que ele conhece no universo são a alimentação, uma fêmea e o repouso".
Nos primórdios, o homem primitivo no seu estado de natureza, teve como educadoras suas necessidades e suas sensações. A necessidade de se alimentar fez com que o homem primitivo descobrisse e desenvolvesse sua capacidade de se locomover. Para se proteger dos fenômenos da natureza e de outros animais ele precisou procurar um abrigo e diante da ameaça de um ataque teve que aprender a emitir sons para conseguir ajuda. A partir de então, os aprendizados de uma geração foram passando para a geração seguinte, e a necessidade deixa de ser a única fonte de educação humana. Como auxiliares no processo de educação aparecem a tradição, o exemplo, e posteriormente as crenças religiosas e os interesses sociais de cada grupo e também pretensões individuais de seus líderes.
Kaspar Hauser, ao contrário do homem primitivo, não sentiu necessidade de se locomover ou de emitir sons para que seus desejos naturais fossem atendidos, pois já possuía abrigo e alimentação.  A necessidade de socialização também não havia no jovem cativo, pois ele, assim como os homens da “caverna de Platão” , acreditava que tudo o que existia era aquele calabouço e as poucas coisas que tinham ali. O único interesse que possuía era o de se alimentar, defecar, urinar e dormir. Ou seja, durante muito tempo, viveu em pleno estado de natureza.
Nos seus primeiros momentos no campo e na cidade, Kaspar tem os olhos ofuscados pela realidade, pois, assim como o homem que se liberta dos grilhões na Caverna de Platão e descobre o mundo lá fora, ele sente medo e admiração diante da nova realidade. É desta forma que qualquer ser humano se sente ao se defrontar com um macrocosmo com dimensões incrivelmente maiores que seu microcosmo.
Para que o choque entre o micro e o macrocosmo não seja tão violento é necessário que haja um processo de socialização do indivíduo desde seus primeiros anos de vida. Os primeiros contatos de um indivíduo com a vida social se inicia no ambiente familiar. É ali que ele começa a ser preparado para se tornar um “animal social e político”, como Aristóteles bem definiu o homem.
Ainda citando Aristóteles, ele diz que o homem que vive só ou é um deus ou uma besta. O personagem principal do filme talvez não se compare nem a uma besta, pois até os animais precisam de contato com outros seres, semelhantes ou não, para que obtenham uma identidade comum a outros.  Essa falta de contato com outros seres e a não preparação para a vida social causa um choque violento entre a minúscula noção de realidade de Kaspar e a vida social em Nuremberg.
  Aos poucos, Kaspar vai descobrindo suas capacidades humanas individuais e sociais. Descobertas que se iniciam através de observações dos atos das outras pessoas e das imitações destes atos. Assim, é o princípio da socialização de todo ser humano. Para Piaget, o homem nasce com as condições necessárias para ser completo, mas precisa de um processo de socialização.
Outro fator essencial para a socialização é a educação. O conceito de educar, muitas vezes se confunde com o conceito de socializar. Mas, assim como a convivência, a observação e a imitação, o processo de educar é  apenas uma das etapa da socialização. Educar é o ato de ensinar e aprender, quer seja na forma oral, escrita ou prática.
Os primeiros contatos de Kaspar Hauser com a educação se inicia na casa da primeira família que o acolhe. Lá, ele aprende como se alimentar usando talheres, a noção de vazio e cheio, a se banhar e conhecer as palavras que dão nome ás partes de seu corpo.
A educação tem também como função, desde o período clássico da filosofia grega, despertar no homem seu lado crítico e questionador. Era esse o método que Sócrates usava para despertar o conhecimento em seus discípulos e nos demais que com ele dialogavam ou debatiam. Através de perguntas, o filósofo fazia seus interlocutores se contradizerem e, em seguida, descobriam dentro de si uma verdade diferente daquela que possuíam anteriormente. Para Sócrates a vida só vale a pena se for questionada.
Kaspar Hauser,  enquanto vai sendo educado e se integrando á sociedade, passa a perceber que a convivência no meio social, tem seus prós e contras. Por um lado, ele entra em contato com o afeto, o conforto, a amizade e a arte. Mas se depara também com os males da sociedade como ganância, preconceitos, jogos de interesse, entre outros. Ele, então, passa a questionar e a criticar os costumes da cidade, como a religião e o papel da mulher no meio social. Em um trecho do filme, chega a dizer que vivia melhor quando estava enclausurado, pois  não convivia com a maldade. Esse trecho do filme nos remete novamente a Rousseau, que em sua teoria sobre a natureza humana diz que todo homem nasce bom e é corrompido pela sociedade. Ao contrário de Hobbes, que afirmava que os homens são maus por natureza.
Durante o filme, vão sendo colocadas muitas outras questões sobre o estado de natureza do ser humano. Há duas que, com certeza  vão intrigar os espectadores mais atentos:
A primeira questão se refere á relação do ser humano com a arte, em especial a música. Kaspar, ao ouvir música pela primeira vez, se emociona e posteriormente se interessa em aprender a tocar piano. Seria então, o gosto pela arte, algo tão natural do homem que se desperta no primeiro contato entre eles?
  A segunda questão é polêmica, pois se refere a relação entre o ser humano e a crença no sobrenatural. Kaspar não tem nenhuma noção de Deus ou de qualquer outro ser sobrenatural. Esse trecho do filme estaria pondo em xeque a afirmação de que a crença e a  adoração a um ser superior e sobrenatural é natural do ser humano, e não um meio de suprir as necessidades primárias e/ou secundárias de nossa existência?
Em suma, “ O Enigma de Kaspar Hauser” é um filme que deve ser assistido com atenção, para que o espectador possa assim refletir e questionar sobre o homem em seu estado de natureza e o processo de socialização de um indivíduo.



BIBLIOGRAFIA


ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. * São Paulo: Abril Cultural, 1978.
HOBBES, T. Leviatã. São Paulo: Martins Fontes, 2008
ZIMMER,H. Filosofias da Índia. Tradução por Nilton Almeida Silva e Cláudia Giovani Bozza. São Paulo: Palas Athena, 2008.


E-REFERÊNCIAS



















quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O Pássaro Azul


Ficha Técnica
Título Original: The Blue Bird, 1940
Ü Direção: Walter Lang
Ü Origem: EUA
Ü Duração: 82 Minutos

                        O Pássaro Azul 
                                                                                                          por: Marcelo Maia

Certa vez ouvi numa estação de rádio, um psicólogo (ou algo semelhante) dizendo que o objetivo da vida é ser feliz. Mas afinal o que é ser feliz? O que é felicidade? A felicidade de um pode tornar o outro feliz? Existe uma felicidade Universal ou a felicidade é algo individual?
Desde que nascemos, somos programados para sermos felizes, por nossos pais ou responsáveis pela nossa criação. Mas essas pessoas idealizam nossa felicidade de acordo com o que acreditam que os fariam ou nos tornarão seres felizes. Dizem a profissão que devemos ter, a religião que devemos seguir, com que tipos de pessoas devemos nos relacionar,etc.
Ainda na infância, mesmo que inocentemente, começamos a perceber que a felicidade não é algo permanente, e sim um sentimento momentâneo. Note que quando uma criança não está brincando ou assistindo um programa de tevê que lhe agrade, ela fica inquieta e algumas vezes resmungando. Ou seja, mesmo sem ter uma opinião ou um conceito sobre felicidade, ela já percebe que seus momentos de contentamento e alegria não são duráveis. E a felicidade nada mais é que os momentos de contentamento e prazer que o ser humano experimenta. Ou seja, não há felicidade permanente.

 Porém, muitas vezes o ser humano subestima esses momentos e passa a visualizar sua felicidade num modo de vida alheio ao seu e na maioria das vezes acredita que a felicidade só existiu no passado e que a tornará encontrá-la somente no futuro (quer seja nesse mundo ou num mundo além).
No filme o Pássaro Azul, a personagem principal é uma garotinha que não se considera feliz por ser pobre e não possuir os mesmos bens que possuem as pessoas ricas. Seus pais tentam mostrar a ela que apesar de todas as dificuldades, eles são felizes. Mytyl e seus pais vivem na mesma condição sócio-econõmica, porém a enxergam de maneira diferente. Se para ela a felicidade se consiste nos bens, os quais ela não possui, para seus pais ser feliz é ter uma família unida.
Mytyl não aceita sua condição de vida e por isso se sente infeliz. Ela almeja muito mais do que as condições daquele momento lhe permite.
De acordo com Nietzsche, “a vida aspira a um sentimento de potência e ela (a vida) é essencialmente uma aspiração á maior quantidade de potência” (KLOSSOWSKI, p. 134).
O ser humano quer poder, e esse poder é traduzido por ele em “ser” e/ou “ter”. E sempre que ele consegue “ser” e/ou “ter” algo que almeja, sente prazer e contentamento. Mas, em pouco tempo percebe que aquilo que ele alcançou, já não o satisfaz mais e parte em busca de um nível maior de potência. Ao perceber que está impotente para efetuar o crescimento de seu poder, o ser humano tende a negar a realidade e o presente e passa a visualizar sua felicidade no passado e/ou no futuro (quer seja nesse mundo ou num além-mundo). Subestimando e negando seus momentos efêmeros, porém reais de contentamento e prazer, o ser humano em sua vontade de uma felicidade permanente passa a afirmar valores que se enquadram no seu ideal de poder. É o que Nietzsche denominava Niilismo.
No filme, Mytyl e seu irmão recebem durante a madrugada a visita de uma fada que os aconselha a encontrarem o Pássaro Azul, pois só assim eles poderão ser felizes. Segundo a fada, o Pássaro pode estar no passado ou no futuro.
Seguindo o conselho e as orientações da fada, os dois irmãos, acompanhados de seus animais de estimação e guiados pela luz (personificada como uma linda mulher) partem em busca da felicidade (representada pelo Pássaro Azul). Primeiro vão ao passado, que no filme é representado pelas lembranças que eles têm de seus avós já mortos. Mas lá não encontram o tal pássaro da felicidade e continuam a busca. Antes de irem para o futuro, resolvem ir ao mundo da fartura, pois quem sabe é ali que se encontra a felicidade. Mas o que encontram ali é egoísmo, inveja, arrogância e frieza.
O interessante é que a luz apesar de guia-los pelo caminho, não está com eles nos lugares em que esperam encontrar o pássaro.
Fazendo uma análise através de uma visão filosófica, chega se a conclusão que a fada representa o ideal dos irmãos. É o ideal de que a felicidade não está no presente e nem na realidade visível. A luz é a razão que os ilumina durante a jornada, mas não se encontra no imaginário das crianças, que é a realidade além. Ou seja, a razão não está no mundo idealizado pelo ser humano como acreditava Platão.
Em “Assim Falou Zaratustra”, Friedrich Nietzsche diz que os sofrimentos e incompetências do ser humano e a ânsia de atingir o extremo em um salto são os criadores de todos os além-mundos. Esses além-mundos podem tanto significar um mundo sobrenatural após a morte quanto um futuro, no qual teremos todas as nossas lacunas preenchidas. Porém o preenchimento total de todas as lacunas do ser humano não passa de um desejo.
Mytyl em sua viagem para o futuro percebe que a tal felicidade que procura não está ali. No filme o futuro é um lugar onde vivem as pessoas que irão nascer. Alguns ali se sentem infelizes, pois não querem nascer. Outros já ficam ansiosos, esperando a hora do nascimento.
Como também não encontram o Pássaro Azul no futuro, os dois irmãos voltam para casa guiados pela luz, que diz que a partir daquele momento estará sempre com eles.
Ao acordarem, contam para seus pais a aventura, mas acabam percebendo que tudo não passou de uma imaginação criada pelo desejo de serem felizes e a crença de que a felicidade está sempre além.
Mytyl conta ao pai sobre a busca pelo Pássaro Azul, mas ele mostra a ela que a ave sempre esteve ali. Ou seja a felicidade  sempre está próxima, porém por ser efêmera, a menosprezamos querendo a tal Felicidade Ideal. Como Gilberto Gil diz numa canção: “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”.
Isso não quer dizer que não temos que pensar e lutar para um futuro melhor. É claro que temos que planejar nosso futuro.  Porém  temos que valorizar o “agora”, senão tudo que fazemos para o futuro será em vão, pois quando ele chega se transforma em presente. O futuro nada mais é do que um presente que virá.
Lembrar dos bons momentos do passado é ótimo; acreditar e lutar para um futuro melhor é necessário. Mas ser feliz é enxergar e valorizar os bons momentos do presente. Não importa quanto tempo esses momentos durem.