APRESENTAÇÃO DO AUTOR E DA OBRA
Por: Marcelo Maia Gomes
Ródion Ramanovich Raskólnikov é um estudante de Direito, que vive em São Petersburgo, ás custas da mãe e da irmã, que do interior lhe enviam dinheiro para os estudos e demais despesas. Para complementar a renda, Raskólnikov faz algumas traduções, ganhando muito pouco. A ajuda financeira que recebe da família e o dinheiro que ganha com seu trabalho não são suficiente. Ele vive precariamente, morando de aluguel em um pequeno apartamento e muitas vezes não tem sequer o que comer.
A situação financeira do Raskólnikov o faz se sentir um ser sub-humano, ao contrário do homem extraordinário que tanto almeja ser. Acreditando que resolveria seus problemas, ele comete um latrocínio, matando também, a irmã da vítima, que testemunhou o crime.
No entanto, o crime cometido por Raskólnikov em vez de transformá-lo em um homem extraordinário o faz sentir pior que antes. Agora, além dos problemas financeiros e de sua baixa autoestima, ele precisa enfrentar sua própria consciência, que ao mesmo tempo deseja e teme a punição pelo seu erro. Ler “Crime e Castigo” faz o leitor pensar se vale tudo em busca de um sentido para vida.
ANÁLISE LITERÁRIA( COM SPOILERS).
Por: Marcelo Maia Gomes
Independentemente do motivo, qualquer pessoa que tira a vida de outra é um assassino; até mesmo aqueles que matam para proteger sua nação, sua própria vida ou a de um ente querido. Alguns assassinos são chamados de criminosos e outros de heróis. Em "Crime e Castigo", Raskólnikov, o protagonista da obra de Dostoievsky é um homem frustrado que pratica um crime banal acreditando que isso o tornaria um ser grandioso e eternizado como foram Napoleão, Júlio César, Alexandre, o Grande, entre outros que entraram para a história por suas conquistas e pelos crimes cometidos para alcançar seus objetivos.
Raskólnikov é um homem, cuja arrogância interna não concorda com sua situação externa. Insatisfeito com a vida que leva, ele quer fazer algo que o torne um homem extraordinário.
Aliona Ivânovna é uma senhora já idosa, uma agiota que cobra juros altíssimos. Como numa loja de penhores, ela fica com algum objeto de valor de seus “clientes”, como garantia para receber o que lhe devem. Raskólnikov é um dos que recorrem á Aliona para conseguir dinheiro, empenhando as poucas coisas que possui como um anel e um relógio de prata, que herdara de seu pai.
A agiota pagava muito menos do que valia aquilo que estava sendo penhorado. Dessa forma, estava sempre lucrando; quer seja com os juros pagos pelo devedor ou pela venda do que foi deixado como garantia. Além disso, ela explorava Lisavieta, sua irmã mais nova, obrigando-a a fazer os serviços domésticos, e tomando lhe todo o dinheiro, conseguido ás custas de faxinas que fazia em outras casas. Não eram raras, as vezes em que Lisavieta era espancada por sua irmã mais velha.
Aliona representa o sistema capitalista, criticado por Dostoiévsky. Aproveita-se da fraqueza das pessoas para se fortalecer. Ela, apesar da idade, ainda controla e explora os necessitados ( situação que representa o capitalismo, que na segunda metade do século XIX , já era considerado por muitos russos como obsoleto, mas que ainda dominava o país ).Raskólnikov acredita que latrocinar Aliona, além de resolver sua situação financeira, estaria cometendo um ato nobre, o que o faria se sentir tão extraordinário como os grandes homens da história. Livraria o mundo de uma pessoa má, que abusa de suas condições para explorar os necessitados.
No entanto ao cumprir o que acreditava ser sua honrosa missão no mundo, matando e roubando Aliona, Raskólnikov mata também Lisavieta que é tão explorada pela agiota quanto ele. Embora "Crime e Castigo" tenha sido publicado 51 anos antes da Revolução Russa, podemos comparar a morte de Lisavieta com a morte de vários inocentes durante os conflitos que derrubaram a monarquia czarista na Rússia.
Se antes do crime, Raskólnikov se sentia um ser, cuja existência não representava, passa a se sentir atormentado tanto pela culpa e pelo medo como por não ter alcançado seus objetivos: resolver sua situação financeira e se tornar um herói. Ao contrário, passa a se sentir tão inescrupuloso como era sua vítima. Além disso, ele nem mesmo usufrui do que roubou, já que esconde tudo debaixo de uma pedra.
Se Aliona representa o capitalismo, seu assassino representa a vítima do sistema. Não aquela vítima que quer se libertar da exploração, mas a que quer se tornar tão ou mais poderosa que seu opressor. No entanto, o crime o tornará mais fraco. Sua essência deixa de ser a frustração por não ser extraordinário e passa a ser o tormento por não alcançar sua meta e o medo de ser descoberto por ter cometido um crime que não resolveu nenhum de seus problemas.
O niilismo leva o homem á duas consequências: a de viver atormentado por um pessimismo crônico ou á busca de um significado para a existência. Raskólnikov se sentia um “nada”, um ser inútil para a humanidade. Ambicionava o sucesso e um sentido para sua vida. Matar e roubar não lhe proporcionaram nenhuma dessas coisas.
Dostoiévsky cria seu personagem baseando se no dualismo cristão, mostrando o homem constituído pelas camadas do Bem e do Mal. Além de ser atormentado psicologicamente pelo medo das leis mundanas, Raskólnikov é condenado espiritualmente por suas convicções religiosas.
A intenção de Dostoievsky não foi criar um romance policial, onde o crime é o tema central da trama. O escritor russo procura abordar as complicações que um ato causa a alma humana. O pior castigo de um crime nem sempre é a privação da liberdade física, mas o tormento de suas consequências, que priva a consciência de um raciocínio livre.
Se Aliona representa o capitalismo, seu assassino representa a vítima do sistema. Não aquela vítima que quer se libertar da exploração, mas a que quer se tornar tão ou mais poderosa que seu opressor. No entanto, o crime o tornará mais fraco. Sua essência deixa de ser a frustração por não ser extraordinário e passa a ser o tormento por não alcançar sua meta e o medo de ser descoberto por ter cometido um crime que não resolveu nenhum de seus problemas.
O niilismo leva o homem á duas consequências: a de viver atormentado por um pessimismo crônico ou á busca de um significado para a existência. Raskólnikov se sentia um “nada”, um ser inútil para a humanidade. Ambicionava o sucesso e um sentido para sua vida. Matar e roubar não lhe proporcionaram nenhuma dessas coisas.
Dostoiévsky cria seu personagem baseando se no dualismo cristão, mostrando o homem constituído pelas camadas do Bem e do Mal. Além de ser atormentado psicologicamente pelo medo das leis mundanas, Raskólnikov é condenado espiritualmente por suas convicções religiosas.
A intenção de Dostoievsky não foi criar um romance policial, onde o crime é o tema central da trama. O escritor russo procura abordar as complicações que um ato causa a alma humana. O pior castigo de um crime nem sempre é a privação da liberdade física, mas o tormento de suas consequências, que priva a consciência de um raciocínio livre.
Em um diálogo com a prostituta Sônia, Raskólnikov atormentado pela culpa e pelo frustração por não atingir sua meta, diz que na verdade não matou a velha, mas a si mesmo. Ela, então, aconselha o assassino a confessar o crime á polícia e se arrepender perante Deus. Só assim, ele voltará a viver.
Sônia, uma mulher que se prostitui para ajudar a família, torna-se um abrigo para a consciência atormentada de Raskólkinov e passa a representar um sentido para a vida dele, pois o ama e cria nele a esperança de que o mundo pode ser melhor. Ao mesmo, ser amado por outras pessoas atormenta ainda mais a consciência do personagem, pois as consequências de seus erros afetam também aqueles que o querem bem.
Sônia, uma mulher que se prostitui para ajudar a família, torna-se um abrigo para a consciência atormentada de Raskólkinov e passa a representar um sentido para a vida dele, pois o ama e cria nele a esperança de que o mundo pode ser melhor. Ao mesmo, ser amado por outras pessoas atormenta ainda mais a consciência do personagem, pois as consequências de seus erros afetam também aqueles que o querem bem.
Tentando aliviar sua angústia, Raskólnikov segue o conselho de Sônia e se entrega à polícia. Condenado a oito anos de trabalhos forçados na Sibéria, ele questiona por que é considerado criminoso por dois homicídios enquanto aqueles que mataram milhões são chamados de heróis. Percebemos, então, que a privação de sua liberdade o faz pensar muito mais na frustração de não ter conseguido se tornar um homem extraordinário do que se arrepender por ter assassinado duas mulheres.
Perguntava-se também por que insistia em viver, ao invés de se matar. Não entendia como os demais presos pareciam amar a vida, mesmo nas condições em que viviam. Talvez, por isso sentia que sofria mais que os outros; não suportava sua existência, mas não tinha coragem e nem vontade de dar um fim a ela. Talvez, por ter como a luz no fim do túnel a existência Sônia, que o visita frequentemente e mais tarde passa a viver com seu amado no presídio. É o amor de Sônia que renova Raskólnikov e o transforma em um homem que sente vontade de viver e que finalmente se arrepende e se redime de seus erros.
A intenção de Dostoievsky em "Crime e Castigo" é mostrar ao leitor que o erro não soluciona os problemas; ao contrário, traz tormentos causados pelo medo e pela culpa. Nos capítulos finais, a obra do romancista russo apresenta como remédios para o pecado a confissão, o arrependimento e o amor.