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segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Escritores da Liberdade

SINOPSE
por Marcelo Maia Gomes

O filme “Os Escritores da Liberdade” é a versão cinematográfica do livro The Freedom Writers Diaries, baseado nas experiências reais da professora Erin Gruwell e de seus diversos alunos.
No filme, a jovem professora Erin Gruwell( interpretada por Hilary Swank) vai trabalhar em uma escola, lecionando numa turma de alunos rebeldes e problemáticos. Mesmo sem contar com o apoio da direção da escola, que não se importa muito com aqueles adolescentes, Erin acredita em seus alunos e se dispõe a investir neles.
No início, ela tem problemas na relação com a classe, composta em sua maioria por filhos de imigrantes, negros e pobres. Eles veem na professora, uma representante da dominação branca sobre eles. No entanto, com bastante perseverança, ela vai conquistando a confiança dos garotos.
Para superar as diferenças étnicas e as mazelas sociais, Erin indica a leitura do best seller “O Diário de Anne Frank” e sugere que cada aluno escreva em um caderno personalizado suas experiências de vida.
Um ótimo filme que nos leva a refletir sobre a relação “professor/aluno” e a valorização do espírito no processo educacional.


COMENTÁRIO 
por Marcelo Maia Gomes

Para o filósofo Sócrates, as ações do homem deveriam se fundamentar na busca de valores e esse era o principal objetivo de sua filosofia; transformar seus concidadãos em pessoas melhores. E assim deve ser o papel de um educador; criar nas pessoas uma consciência de valores, através de exemplos e conceitos.
Um educador não deve ser, apenas, um seguidor de roteiros de planos de ensino e repetidor do que está nos livros didáticos. É necessário que o professor leve o aluno a questionar o que está ao seu redor e a si próprio. O aluno deve ser incentivado à dúvida, à pesquisa e ao debate para formar seu próprio raciocínio e ser capaz de argumentar e defender aquilo que acredita.
A professora Erin Gruwell ao se deparar com uma situação de preconceito racial em uma classe de alunos problemáticos, não tentou impor aos seus alunos o que é certo e o que é errado. Ela os levou a questionar a situação, citando como exemplo, o Holocausto. Esse foi o ponto de partida para a jovem educadora, que deixou de ser, apenas, uma copiadora de livros didáticos no quadro e passou a ser uma pessoa interessada em transformar aqueles jovens em caçadores de valores.
Ela não deixou que o descaso das autoridades e o descrédito da direção da escola em que lecionava a desanimasse de ir atrás de seu objetivo, que era tornar seus alunos pessoas de bem. Além desses obstáculos, ela enfrentou a desaprovação do seu pai em relação a sua escolha profissional e a incompreensão do marido, que a abandonou alegando que estava sendo deixado de lado pela esposa. Erin acreditou que uma boa educação poderia criar uma nova consciência nos jovens e lutou por isso.
Ela usou de forma diferente, o método socrático de se educar, divido em dois períodos; ironia e maiêutica. Através da leitura, em especial do livro “O Diário de Anne Frank” e de conversas com a professora, os alunos se questionavam(ironia) sobre questões raciais e sociais, o que lhes permitiam dar lugar a novas ideias(maiêutica).
Nietzsche criticou a educação vigente na Alemanha dos últimos anos do sec. XIX, que era preparada não com o intuito de elevação da cultura mas, para o mercado. Outra crítica que o filósofo alemão fez à educação de seu tempo era a tendência à especialização em determinada área, deixando de lado a preparação de um espírito crítico, criador e emancipatório
Nos dias atuais, em nosso país, a educação está muito pior daquela criticada por Nietzsche, já que grande parte dos jovens terminam o ensino médio sem, ao menos, entenderem o que e  porque aprenderam o que lhes foi ensinado em doze anos. Disciplinas como a Filosofia, Sociologia e Artes não são valorizadas nas escolas, principalmente no Ensino Público. Com isso, o educando cria a consciência de que escrever mesmo cheio de erros, e fazer cálculos lhe basta para ser um homem preparado para a vida. Não questionam, não pesquisam e nem debatem qualquer assunto. Tornam-se adultos cheios de certezas fundamentadas numa visão superficial, criada em igrejas,revistas "Veja" e emissoras de televisão, e tal visão é divulgada em bares, dentro de ônibus e em reuniões familiares,onde na maioria das vezes estão pessoas com a mesma formação ou até inferior a de seus "profetas". Daí, cria-se o círculo da imbecilidade.
Erin percebeu que os alunos de sua classe precisavam muito mais do que serem preparados para o mercado e ,muito menos, para serem divulgadores de certezas não fundamentadas. Precisavam aprender a viver no meio dos diferentes, a entender o preconceito e a combatê-lo. Para conseguir o resultado que queria, a jovem professora sabia que precisava ser bem mais que idealista; era necessário estar disposta a enfrentar a si mesma para isso.
Embora o filme “Os Escritores da Liberdade” conte uma história baseada em fatos reais ocorridos nos Estados Unidos, há muita semelhança com a situação educacional no Brasil. Não é difícil, encontrar  escolas em nosso país, na qual professores e diretores já desistiram dos alunos e só estão ali para cumprirem um contrato e receberem seus míseros salários no início do mês seguinte. Há um descaso das autoridades com os profissionais do ensino e com a educação em si.
Assim como no filme, os professores brasileiros se deparam com vários alunos vindo de famílias desestruturadas, com sérios problemas emocionais e sócio econômicos. Na escola, esses alunos vão repetir as ações praticadas em seus lares e/ou na vizinhança. O envolvimento com a criminalidade também é frequente entre esses jovens, que estão tanto nas periferias quanto nos bairros onde o poder aquisitivo é maior.
Reconheço, a dificuldade de se ensinar no Brasil, mas acho que nós, responsáveis pela educação e pela formação de pessoas para o futuro deveríamos nos dedicar mais a essa função. Porém, a maioria dos professores não têm a determinação e, nem sequer, a vontade que teve Erin Gruwell. Justificam esse descaso culpando o baixo salário e as condições precárias de trabalho. Mas, será que se tivessem, ao menos, vontade de ser educadores, estariam se importando com isso? Para terminar, parafraseio um apresentador de um programa policial: "cuide de seus alunos, ou os traficantes cuidarão deles".

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Crime e Castigo- Dostoiévsky

   
APRESENTAÇÃO DO AUTOR E DA OBRA
Por: Marcelo Maia Gomes

      Fiódor Mikhailovich Dostoiévsky (* Moscou- 11 de novembro de 1821 + São Petersburgo- 9 de fevereiro de 1881 ), um dos maiores romancistas russos é, também, considerados por muitos, o fundador do existencialismo.Sua obra retrata a humilhação e a autodestruição humana, analisando estados patológicos que levam o ser humano á loucura, ao suicídio e ao homicídio. As ideias de Dostoievsky influenciaram filósofos (especialmente os existencialistas ), teólogos e vários campos da psicologia. Crime e Castigo, publicado originalmente em 1866, apresenta ao leitor um homem frustrado em busca da grandiosidade humana, muito pregada na Rússia, na segunda metade do século XIX.
      Ródion Ramanovich Raskólnikov é um estudante de Direito, que vive em São Petersburgo, ás custas da mãe e da irmã, que do interior lhe enviam dinheiro para os estudos e demais despesas. Para complementar a renda, Raskólnikov faz algumas traduções, ganhando muito pouco. A ajuda financeira que recebe da família e o dinheiro que ganha com seu trabalho não são suficiente. Ele vive precariamente, morando de aluguel em um pequeno apartamento e muitas vezes não tem sequer o que comer.
     A situação financeira do Raskólnikov o faz se sentir um ser sub-humano, ao contrário do homem extraordinário que tanto almeja ser. Acreditando que resolveria seus problemas, ele comete um latrocínio, matando também, a irmã da vítima, que testemunhou o crime.
      No entanto, o crime cometido por Raskólnikov em vez de transformá-lo em um homem extraordinário o faz sentir pior que antes. Agora, além dos problemas financeiros e de sua baixa autoestima, ele precisa enfrentar sua própria consciência, que ao mesmo tempo deseja e teme a punição pelo seu erro.  Ler “Crime e Castigo” faz o leitor pensar se vale tudo em busca de um sentido para vida. 

ANÁLISE LITERÁRIA( COM SPOILERS).
Por: Marcelo Maia Gomes

          Independentemente do motivo, qualquer pessoa que tira a vida de outra é um assassino; até mesmo aqueles que matam para proteger sua nação, sua própria vida ou a de um ente querido. Alguns assassinos são chamados de criminosos e outros de heróis. Em "Crime e Castigo",  Raskólnikov, o protagonista da obra de Dostoievsky é um homem frustrado que pratica um crime banal acreditando que isso o tornaria um ser grandioso e eternizado como foram Napoleão, Júlio César, Alexandre, o Grande, entre outros que entraram para a história por suas conquistas e pelos crimes cometidos para alcançar seus objetivos.
      Raskólnikov é um homem, cuja arrogância interna não concorda com sua situação externa. Insatisfeito com a vida que leva, ele quer fazer algo que o torne um homem extraordinário.
     Aliona Ivânovna é uma senhora já idosa, uma agiota que cobra juros altíssimos. Como numa loja de penhores, ela fica com algum objeto de valor de seus “clientes”, como garantia para receber o que lhe devem.  Raskólnikov é um dos que recorrem á Aliona para conseguir dinheiro, empenhando as poucas coisas que possui como um anel e um relógio de prata, que herdara de seu pai.
     A agiota pagava muito menos do que valia aquilo que estava sendo penhorado. Dessa forma, estava sempre lucrando; quer seja com os juros pagos pelo devedor ou pela venda do que foi deixado como garantia. Além disso, ela explorava Lisavieta, sua irmã mais nova, obrigando-a a fazer os serviços domésticos, e tomando lhe todo o dinheiro, conseguido ás custas de faxinas que fazia em outras casas. Não eram raras, as vezes em que Lisavieta era espancada por sua irmã mais velha.
     Aliona representa o sistema capitalista, criticado por Dostoiévsky. Aproveita-se da fraqueza das pessoas para se fortalecer. Ela, apesar da idade, ainda controla e explora os necessitados ( situação que representa o capitalismo, que na segunda metade do século XIX , já era considerado por muitos russos como obsoleto, mas que ainda dominava o país ).
      Raskólnikov acredita que latrocinar Aliona, além de resolver sua situação financeira, estaria cometendo um ato nobre, o que o faria se sentir tão extraordinário como os grandes homens da história. Livraria o mundo de uma pessoa má, que abusa de suas condições para explorar os necessitados.
    No entanto ao cumprir o que acreditava ser sua honrosa missão no mundo, matando e roubando Aliona, Raskólnikov mata também Lisavieta que é tão explorada pela agiota quanto ele. Embora "Crime e Castigo" tenha sido publicado 51 anos antes da Revolução Russa, podemos comparar a morte de Lisavieta com a morte de vários inocentes durante os conflitos que derrubaram a monarquia czarista na Rússia.
   Se antes do crime, Raskólnikov se sentia um ser, cuja existência não representava, passa a se sentir atormentado tanto pela culpa e pelo medo como por não ter alcançado seus objetivos: resolver sua situação financeira e se tornar um herói. Ao contrário, passa a se sentir tão inescrupuloso como era sua vítima. Além disso, ele nem mesmo usufrui do que roubou, já que esconde tudo debaixo de uma pedra.
   Se Aliona representa o capitalismo, seu assassino representa a vítima do sistema. Não aquela vítima que quer se libertar da exploração, mas a que quer se tornar tão ou mais poderosa que seu opressor. No entanto, o crime o tornará mais fraco. Sua essência deixa de ser a frustração por não ser extraordinário e passa a ser o tormento por não alcançar sua meta e o medo de ser descoberto por ter cometido um crime que não resolveu nenhum de seus problemas.
   O niilismo leva o homem á duas consequências: a de viver atormentado por um pessimismo crônico ou á busca de um significado para a existência. Raskólnikov se sentia um “nada”, um ser inútil para a humanidade. Ambicionava o sucesso e um sentido para sua vida. Matar  e roubar não lhe proporcionaram nenhuma dessas coisas.
    Dostoiévsky cria seu personagem baseando se no dualismo cristão, mostrando o homem constituído pelas camadas do Bem e do Mal. Além de ser atormentado psicologicamente  pelo medo das leis mundanas, Raskólnikov é condenado espiritualmente por suas convicções religiosas.
      A intenção de Dostoievsky não foi criar um romance policial, onde o crime é o tema central da trama. O escritor russo procura abordar as complicações que um ato causa a alma humana. O pior castigo de um crime nem sempre é a privação da liberdade física, mas o tormento de suas consequências, que priva a consciência de um raciocínio livre.
     Em um diálogo com a prostituta Sônia, Raskólnikov atormentado pela culpa e pelo frustração por não atingir sua meta, diz que na verdade não matou a velha, mas a si mesmo. Ela, então, aconselha o assassino a confessar o crime á polícia e se arrepender perante Deus. Só assim, ele voltará a viver.
         Sônia, uma mulher que se prostitui para ajudar a família, torna-se  um abrigo para a consciência atormentada de Raskólkinov e passa a representar um sentido para a vida dele, pois o ama e cria nele a esperança de que o mundo pode ser melhor. Ao mesmo, ser amado por outras pessoas atormenta ainda mais a consciência do personagem, pois as consequências de seus erros afetam também aqueles que o querem bem.
    Tentando aliviar sua angústia, Raskólnikov segue o conselho de Sônia e se entrega à polícia. Condenado a oito anos de trabalhos forçados na Sibéria, ele questiona por que é considerado criminoso por dois homicídios enquanto aqueles que mataram milhões são chamados de heróis. Percebemos, então, que a privação de sua liberdade o faz pensar muito mais na frustração de não ter conseguido se tornar um homem extraordinário do que se arrepender por ter assassinado duas mulheres. 
    Perguntava-se também por que insistia em viver, ao invés de se matar. Não entendia como os demais presos pareciam amar a vida, mesmo nas condições em que viviam. Talvez, por isso sentia que sofria mais que os outros; não suportava sua existência, mas não tinha coragem e nem vontade de dar um fim a ela. Talvez, por ter como a luz no fim do túnel a existência Sônia, que o visita frequentemente e mais tarde passa a viver com seu amado no presídio. É o amor de Sônia que renova Raskólnikov e o transforma em um homem que sente vontade de viver e que finalmente se arrepende e se redime de seus erros. 
    A intenção de Dostoievsky em "Crime e Castigo" é  mostrar ao leitor que o erro não soluciona os problemas; ao contrário, traz tormentos causados pelo medo e pela culpa. Nos capítulos finais, a obra do romancista russo apresenta como remédios para o pecado a confissão, o arrependimento e o amor.

domingo, 8 de junho de 2014

O Sétimo Selo

SINOPSE
Por Marcelo Maia Gomes

Lançado em 1956, o filme “O Sétimo Selo” é considerado uma das duas maiores obras do sueco Ingmar Bergman, junto com Morangos Silvestres( 1957). Nos dois filmes, o cineasta trata da questão do sentido da vida e do homem diante da morte.
O cenário do filme é a Europa do século XIV, devastada pela peste negra e administrada pela Igreja e legislada pela inquisição da mesma.
O filme é considerado um clássico do cinema mundial e até hoje serve como estudo e reflexão, tanto para filosofia quanto para a psicologia e teologia

COMENTÁRIO
Por Marcelo Maia Gomes

O medo da morte é algo que todos os seres humanos tem em comum e nos forçamos a aceitá-la, porque sabemos que é impossível evitá-la. Há tempos, o ser humano vem tentado prolongar sua existência cada vez mais através da ciência e/ou se confortando, através da crença, pregada pela maioria das religiões, de que viverá eternamente em um mundo além.
Pensar que um dia deixará de existir, causa ao ser humano frustração e pavor, criando nele a necessidade de buscar uma “realidade” além da que se vê. O homem tende a acreditar que há um sentido na vida e para isso é necessário que ela continue após a morte. Pois, se tudo termina com a morte, que sentido há em viver?
Em “O Sétimo Selo”, um cavaleiro medieval ao se deparar com a morte, propõe a esta um jogo de xadrez, com a intenção de ganhar tempo para encontrar um sentido para vida.
Quando se apresenta, A Morte diz a Block que anda ao seu lado há muito tempo. Afinal, a morte é algo iminente desde que uma vida se forma. No entanto, enquanto corpo se prepara naturalmente para a morte desde sua concepção, nossa consciência não a aceita tão fácil. É, exatamente isso, que o cavaleiro quer dizer quando responde que seu corpo está preparado para o fim, mas ele não.
Esse conflito entre a vontade da consciência e a incapacidade do corpo de satisfazer tal vontade cria no homem um sentimento niilista, que o faz negar esta vida em prol de uma existência eterna no além.
A consciência humana não aceita ser apenas uma parte do físico perecível. Ela quer transcender a isso, quer superar sua própria natureza. Enquanto alguns se apegam á crença na  vida pós morte, outros buscam uma maneira de prolongar sua existência ou até mesmo alcançar eternidade aqui mesmo, através da ciência. Todos querem solucionar o problema que é única certeza da vida e nossa maior frustração; o fim.
Block tenta vencer a morte em um jogo de xadrez, mas no fundo sabe que isso é impossível. Sendo assim aproveita o pouco tempo que lhe resta para tentar descobrir se há algum objetivo para a vida, além de seu fim.
A religião e os aspectos da religiosidade são temas bastante questionados no filme de Bergman. Block, várias vezes questiona a existência de Deus e qual o objetivo da fé. Quando, ele encontra com uma mulher que está prestes a ser queimada na fogueira, por supostamente ter se envolvido com o Diabo, o cavaleiro se aproxima dela para saber se ela tem conhecimento de Deus. Afinal, se ela teve contato com o Diabo, soubesse também sobre o Criador.
Porém, ao questioná-la, não encontra as respostas que procura e a “possuída”, é mais um bode expiatório para justificar a incompetência da ciência, da política e da igreja que não conseguem descobrir a causa da peste e muito menos uma solução para o problema. Enquanto Block não aceita a falta de respostas para seus questionamentos e continua a procura de Deus e/ou do Diabo, o escudeiro Jon acredita que só há o vazio, tanto para nos proteger quanto nos atormentar.
Paralelamente aos questionamentos de Block e sua busca por um sentido na vida, uma companhia de teatro mambembe parece indiferente ao cenário caótico e sombrio da época. Contrapondo se ao sofrimento, amargura e angústia dos demais personagens, os atores da trupe são alegres, amam e têm a arte como escudo diante da nonsense da vida e da certeza da morte. Seria a arte, o único meio de superar a vontade, que é a fonte de todo sofrimento humano como acreditava Schopenhauer? No caso do filme, a vontade de encontrar sentido na vida e encarar (ou seria ignorar?) a morte. É como disse Nietzsche “temos a arte para não morrer ante a verdade”.
Já Camus não acredita que a arte oferece uma saída para o mal do espírito, mas é um dos sinais deste mal, e ela (a arte) nasce da renúncia de raciocinar o concreto. Ou seja, tanto para Schopenhauer como para Nietzsche e Camus, a arte nada mais é que um artifício usado pelo ser humano para dá sabor à uma natureza insípida.
E enquanto Block percebe a insipidez e parte em busca de encontrar um sabor concreto para a existência, e seu escudeiro Jon aceita que vida não tem finalidade alguma, os integrantes da companhia de teatro vivem felizes e amando, alheios tanto à peste quanto aos questionamentos racionais sobre a vida.
Então, se a arte não é uma saída para o mal, como diz Camus, é no mínimo, um meio de se proteger dele, assim como o guarda-chuva que não impede a tempestade, mas evita que nos molhemos totalmente.
Se a arte pode ser comparada a um guarda-chuva em um dia de tempestade, a ingenuidade se assemelha a uma casa bem construída, onde nenhuma gota de chuva cai. É essa ingenuidade que permite que a família mambembe seja feliz, tendo a desgraça ao seu redor. Jof, um dos integrantes da trupe, é o único personagem que enxerga o sagrado, através de suas epifanias e também percebe que a morte é a adversária de Antonius Block no jogo de xadrez. No fim, apenas ele, sua esposa e o filho escapam da morte e seguem a vida, sem se importarem se a existência tem ou não sentido. É como diz a canção; “estamos vivos e é só”. E é isso que importa para Jof e sua família; estarem vivos, “sem motivos, nem objetivos”.
Block, ao perceber que perdeu o jogo e que será levado pela morte implora pela presença e ajuda de Deus. Jon, em seu ceticismo, diz ao cavaleiro que não há ninguém para ouvir suas lamentações e súplicas, e apenas a indiferença e a escuridão os espera.
O cavaleiro e seus amigos percebem que quando “ela” chega, não há como escapar e o jeito é segui-la Mas, para onde? Para o Paraíso cheio de recompensas, para o Inferno e seu eterno castigo, para o vazio da inexistência ou continuamos sem respostas?
Bergman, não tem a intenção de difamar a fé e a religião, mas sim questionar o papel de ambas em meio as desgraças da humanidade. Afinal, a função da fé e da religião é paliativa, acusadora e punitiva ou, realmente, solucionadora?
O cineasta também parece não ter a intenção de mostrar a vida, através do pessimismo, mas mostra-la sob vários pontos de vista. Block é  homem que acredita que a vida possa ter sentido, e sai nessa busca. O escudeiro Jon,  aceita a nonsense da existência e em alguns momentos sente medo do vazio. E o ator Jof e sua família, têm a arte, o amor e a inocência como um remédio para os males da existência. E isso basta para eles.

BIBLIOGRAFIA
CAMUS, A. O Mito de Sísifo. Tradução de Ari Roitman e Paulina Watch. Rio de Janeiro. Editora Record, 2008.
MANN, H. O Pensamento Vivo de Nietzsche. Tradução de Sérgio Milliet. São Paulo. Editora Martins, 1975

E- REFERÊNCIAS
FILOSOFIA COM ARTE NO ENSINO MÉDIO ( Disponível em http://filosofiacomarte.blogspot.com.br/2008/10/temas-recorrentes-no-filme-o-stimo-selo.html Acesso em 17 de Setembro de 2013 ás 22:31)