Ficha Técnica
Título Original: The Blue Bird, 1940
Ü Direção: Walter Lang
Ü Origem: EUA
Ü Duração: 82 Minutos
Ü Origem: EUA
Ü Duração: 82 Minutos
O Pássaro Azul
por: Marcelo Maia
Certa vez ouvi numa estação de rádio,
um psicólogo (ou algo semelhante) dizendo que o objetivo da vida é ser feliz.
Mas afinal o que é ser feliz? O que é felicidade? A felicidade de um pode tornar o outro
feliz? Existe uma felicidade Universal ou a felicidade é algo individual?
Desde que nascemos, somos programados
para sermos felizes, por nossos pais ou responsáveis pela nossa criação. Mas
essas pessoas idealizam nossa felicidade de acordo com o que acreditam que os
fariam ou nos tornarão seres felizes. Dizem a profissão que devemos ter, a religião que devemos seguir, com que tipos de pessoas devemos nos relacionar,etc.
Ainda na infância, mesmo que inocentemente,
começamos a perceber que a felicidade não é algo permanente, e sim um
sentimento momentâneo. Note que quando uma criança não está brincando ou
assistindo um programa de tevê que lhe agrade, ela fica inquieta e algumas
vezes resmungando. Ou seja, mesmo sem ter uma opinião ou um conceito sobre
felicidade, ela já percebe que seus momentos de contentamento e alegria não são
duráveis. E a felicidade nada mais é que os momentos de contentamento e prazer
que o ser humano experimenta. Ou seja, não há felicidade permanente.
Porém, muitas vezes o ser humano subestima
esses momentos e passa a visualizar sua felicidade num modo de vida alheio ao
seu e na maioria das vezes acredita que a felicidade só existiu no passado e
que a tornará encontrá-la somente no futuro (quer seja nesse mundo ou num mundo
além).
No filme o Pássaro Azul, a personagem principal é uma
garotinha que não se considera feliz por ser pobre e não possuir os mesmos bens
que possuem as pessoas ricas. Seus pais tentam mostrar a ela que apesar de
todas as dificuldades, eles são felizes. Mytyl e seus pais vivem na mesma condição sócio-econõmica, porém a enxergam de maneira diferente. Se para ela a felicidade se
consiste nos bens, os quais ela não possui, para seus pais ser feliz é ter uma
família unida.
Mytyl não aceita sua condição de vida
e por isso se sente infeliz. Ela almeja muito mais do que as condições daquele
momento lhe permite.
De acordo com Nietzsche, “a vida
aspira a um sentimento de potência e ela (a vida) é essencialmente uma
aspiração á maior quantidade de potência” (KLOSSOWSKI, p. 134).
O ser
humano quer poder, e esse poder é traduzido por ele em “ser” e/ou “ter”. E sempre
que ele consegue “ser” e/ou “ter” algo que almeja, sente prazer e
contentamento. Mas, em pouco tempo percebe que aquilo que ele alcançou, já não
o satisfaz mais e parte em busca de um nível maior de potência. Ao perceber que
está impotente para efetuar o crescimento de seu poder, o ser humano tende a
negar a realidade e o presente e passa a visualizar sua felicidade no passado
e/ou no futuro (quer seja nesse mundo ou num além-mundo). Subestimando e
negando seus momentos efêmeros, porém reais de contentamento e prazer, o ser
humano em sua vontade de uma felicidade permanente passa a afirmar valores que se
enquadram no seu ideal de poder. É o que Nietzsche denominava Niilismo.
No filme,
Mytyl e seu irmão recebem durante a madrugada a visita de uma fada que os
aconselha a encontrarem o Pássaro Azul, pois só assim eles poderão ser felizes.
Segundo a fada, o Pássaro pode estar no passado ou no futuro.
Seguindo o
conselho e as orientações da fada, os dois irmãos, acompanhados de seus animais
de estimação e guiados pela luz (personificada como uma linda mulher) partem em
busca da felicidade (representada pelo Pássaro Azul). Primeiro vão ao passado,
que no filme é representado pelas lembranças que eles têm de seus avós já
mortos. Mas lá não encontram o tal pássaro da felicidade e continuam a busca.
Antes de irem para o futuro, resolvem ir ao mundo da fartura, pois quem sabe é
ali que se encontra a felicidade. Mas o que encontram ali é egoísmo, inveja,
arrogância e frieza.
O
interessante é que a luz apesar de guia-los pelo caminho, não está com eles nos
lugares em que esperam encontrar o pássaro.
Fazendo uma
análise através de uma visão filosófica, chega se a conclusão que a fada
representa o ideal dos irmãos. É o ideal de que a felicidade não está no
presente e nem na realidade visível. A luz é a razão que os ilumina durante a
jornada, mas não se encontra no imaginário das crianças, que é a realidade
além. Ou seja, a razão não está no mundo idealizado pelo ser humano como acreditava Platão.
Em “Assim
Falou Zaratustra”, Friedrich Nietzsche diz que os sofrimentos e incompetências do
ser humano e a ânsia de atingir o extremo em um salto são os criadores de todos
os além-mundos. Esses além-mundos podem tanto significar um mundo sobrenatural
após a morte quanto um futuro, no qual teremos todas as nossas lacunas
preenchidas. Porém o preenchimento total de todas as lacunas do ser humano não passa de um desejo.
Mytyl em
sua viagem para o futuro percebe que a tal felicidade que procura não está ali.
No filme o futuro é um lugar onde vivem as pessoas que irão nascer. Alguns ali
se sentem infelizes, pois não querem nascer. Outros já ficam ansiosos,
esperando a hora do nascimento.
Como também
não encontram o Pássaro Azul no futuro, os dois irmãos voltam para casa guiados
pela luz, que diz que a partir daquele momento estará sempre com eles.
Ao
acordarem, contam para seus pais a aventura, mas acabam percebendo que tudo não
passou de uma imaginação criada pelo desejo de serem felizes e a crença de que
a felicidade está sempre além.
Mytyl conta
ao pai sobre a busca pelo Pássaro Azul, mas ele mostra a ela que a ave sempre
esteve ali. Ou seja a felicidade sempre está próxima, porém por ser efêmera, a menosprezamos
querendo a tal Felicidade Ideal. Como Gilberto Gil diz numa canção: “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”.
Isso não
quer dizer que não temos que pensar e lutar para um futuro melhor. É claro que
temos que planejar nosso futuro. Porém
temos que valorizar o “agora”,
senão tudo que fazemos para o futuro será em vão, pois quando ele chega se transforma em presente. O futuro nada mais é
do que um presente que virá.
Lembrar dos
bons momentos do passado é ótimo; acreditar e lutar para um futuro melhor é
necessário. Mas ser feliz é enxergar e valorizar os bons momentos do presente.
Não importa quanto tempo esses momentos durem.

Parabéns pelo texto. ..gostei muito!
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