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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O Pássaro Azul


Ficha Técnica
Título Original: The Blue Bird, 1940
Ü Direção: Walter Lang
Ü Origem: EUA
Ü Duração: 82 Minutos

                        O Pássaro Azul 
                                                                                                          por: Marcelo Maia

Certa vez ouvi numa estação de rádio, um psicólogo (ou algo semelhante) dizendo que o objetivo da vida é ser feliz. Mas afinal o que é ser feliz? O que é felicidade? A felicidade de um pode tornar o outro feliz? Existe uma felicidade Universal ou a felicidade é algo individual?
Desde que nascemos, somos programados para sermos felizes, por nossos pais ou responsáveis pela nossa criação. Mas essas pessoas idealizam nossa felicidade de acordo com o que acreditam que os fariam ou nos tornarão seres felizes. Dizem a profissão que devemos ter, a religião que devemos seguir, com que tipos de pessoas devemos nos relacionar,etc.
Ainda na infância, mesmo que inocentemente, começamos a perceber que a felicidade não é algo permanente, e sim um sentimento momentâneo. Note que quando uma criança não está brincando ou assistindo um programa de tevê que lhe agrade, ela fica inquieta e algumas vezes resmungando. Ou seja, mesmo sem ter uma opinião ou um conceito sobre felicidade, ela já percebe que seus momentos de contentamento e alegria não são duráveis. E a felicidade nada mais é que os momentos de contentamento e prazer que o ser humano experimenta. Ou seja, não há felicidade permanente.

 Porém, muitas vezes o ser humano subestima esses momentos e passa a visualizar sua felicidade num modo de vida alheio ao seu e na maioria das vezes acredita que a felicidade só existiu no passado e que a tornará encontrá-la somente no futuro (quer seja nesse mundo ou num mundo além).
No filme o Pássaro Azul, a personagem principal é uma garotinha que não se considera feliz por ser pobre e não possuir os mesmos bens que possuem as pessoas ricas. Seus pais tentam mostrar a ela que apesar de todas as dificuldades, eles são felizes. Mytyl e seus pais vivem na mesma condição sócio-econõmica, porém a enxergam de maneira diferente. Se para ela a felicidade se consiste nos bens, os quais ela não possui, para seus pais ser feliz é ter uma família unida.
Mytyl não aceita sua condição de vida e por isso se sente infeliz. Ela almeja muito mais do que as condições daquele momento lhe permite.
De acordo com Nietzsche, “a vida aspira a um sentimento de potência e ela (a vida) é essencialmente uma aspiração á maior quantidade de potência” (KLOSSOWSKI, p. 134).
O ser humano quer poder, e esse poder é traduzido por ele em “ser” e/ou “ter”. E sempre que ele consegue “ser” e/ou “ter” algo que almeja, sente prazer e contentamento. Mas, em pouco tempo percebe que aquilo que ele alcançou, já não o satisfaz mais e parte em busca de um nível maior de potência. Ao perceber que está impotente para efetuar o crescimento de seu poder, o ser humano tende a negar a realidade e o presente e passa a visualizar sua felicidade no passado e/ou no futuro (quer seja nesse mundo ou num além-mundo). Subestimando e negando seus momentos efêmeros, porém reais de contentamento e prazer, o ser humano em sua vontade de uma felicidade permanente passa a afirmar valores que se enquadram no seu ideal de poder. É o que Nietzsche denominava Niilismo.
No filme, Mytyl e seu irmão recebem durante a madrugada a visita de uma fada que os aconselha a encontrarem o Pássaro Azul, pois só assim eles poderão ser felizes. Segundo a fada, o Pássaro pode estar no passado ou no futuro.
Seguindo o conselho e as orientações da fada, os dois irmãos, acompanhados de seus animais de estimação e guiados pela luz (personificada como uma linda mulher) partem em busca da felicidade (representada pelo Pássaro Azul). Primeiro vão ao passado, que no filme é representado pelas lembranças que eles têm de seus avós já mortos. Mas lá não encontram o tal pássaro da felicidade e continuam a busca. Antes de irem para o futuro, resolvem ir ao mundo da fartura, pois quem sabe é ali que se encontra a felicidade. Mas o que encontram ali é egoísmo, inveja, arrogância e frieza.
O interessante é que a luz apesar de guia-los pelo caminho, não está com eles nos lugares em que esperam encontrar o pássaro.
Fazendo uma análise através de uma visão filosófica, chega se a conclusão que a fada representa o ideal dos irmãos. É o ideal de que a felicidade não está no presente e nem na realidade visível. A luz é a razão que os ilumina durante a jornada, mas não se encontra no imaginário das crianças, que é a realidade além. Ou seja, a razão não está no mundo idealizado pelo ser humano como acreditava Platão.
Em “Assim Falou Zaratustra”, Friedrich Nietzsche diz que os sofrimentos e incompetências do ser humano e a ânsia de atingir o extremo em um salto são os criadores de todos os além-mundos. Esses além-mundos podem tanto significar um mundo sobrenatural após a morte quanto um futuro, no qual teremos todas as nossas lacunas preenchidas. Porém o preenchimento total de todas as lacunas do ser humano não passa de um desejo.
Mytyl em sua viagem para o futuro percebe que a tal felicidade que procura não está ali. No filme o futuro é um lugar onde vivem as pessoas que irão nascer. Alguns ali se sentem infelizes, pois não querem nascer. Outros já ficam ansiosos, esperando a hora do nascimento.
Como também não encontram o Pássaro Azul no futuro, os dois irmãos voltam para casa guiados pela luz, que diz que a partir daquele momento estará sempre com eles.
Ao acordarem, contam para seus pais a aventura, mas acabam percebendo que tudo não passou de uma imaginação criada pelo desejo de serem felizes e a crença de que a felicidade está sempre além.
Mytyl conta ao pai sobre a busca pelo Pássaro Azul, mas ele mostra a ela que a ave sempre esteve ali. Ou seja a felicidade  sempre está próxima, porém por ser efêmera, a menosprezamos querendo a tal Felicidade Ideal. Como Gilberto Gil diz numa canção: “o melhor lugar do mundo é aqui e agora”.
Isso não quer dizer que não temos que pensar e lutar para um futuro melhor. É claro que temos que planejar nosso futuro.  Porém  temos que valorizar o “agora”, senão tudo que fazemos para o futuro será em vão, pois quando ele chega se transforma em presente. O futuro nada mais é do que um presente que virá.
Lembrar dos bons momentos do passado é ótimo; acreditar e lutar para um futuro melhor é necessário. Mas ser feliz é enxergar e valorizar os bons momentos do presente. Não importa quanto tempo esses momentos durem.





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