●Direção: Alan Parker
●Origem: Reino Unido
●Ano de Lançamento: 1982
●Duração: 95 minutosTHE WALL
Uma fuga ou um meio de enfrentar a náusea e a nonsense da existência?
SINOPSE
por Marcelo Maia
O filme The Wall, é um musical,
baseado no álbum homônimo da banda Pink Floyd. O roteiro, criado pelo baixista
e vocalista Roger Water, conta a vida de um roqueiro que se tranca em uma
prisão psicológica criada por suas desilusões e perdas no decorrer de sua vida.
Pink, o protagonista do filme, cria uma barreira entre ele e a sociedade, se
tornando um ser triste e solitário, mesmo casado, famoso, rico e tendo sempre
ao seu lado uma equipe profissional e sendo adorado pelos seus fãs.
O “muro” de Pink é construído por
momentos marcantes de sua vida, como a morte do pai, a convivência com uma mãe
super protetora, a vida escolar, o casamento e a fama. Um ótimo filme para quem gosta de
música e filosofia
COMENTÁRIO
por Marcelo Maia
Quando
um homem entra em conflito com a existência e percebe a nonsense da vida, o que
lhe resta? Negar essa existência e esperar uma vida melhor no além, acreditar
que um dia encontrará um sentido para a vida, aceitar o absurdo de uma vida que
o levará ao nada ou antecipar o fim dessa existência, se matando? Seria o
suicídio, uma solução para o Absurdo? De acordo com Camus, em “O Mito de
Sísifo”, solução para o Absurdo não é o suicídio, e sim a revolta. Mas como
agir ao se revoltar com a existência, sem se matar? Na ópera-rock “The Wall”, o
protagonista Pink, um astro da música se revolta com a existência e tenta fugir
dela se isolando do mundo exterior . Mas esse isolamento não o leva apenas a se
trancar em casa e a se afastar totalmente da sociedade. Pink se tranca em um
mundo que ele cria em sua mente, tentando se afastar de si mesmo. Para se proteger em seu mundo, ele começa a
construir um “muro” que o separa mentalmente do convívio social e de sua condição atual. No entanto, os
tijolos que formam “o muro (The Wall)” de Pink, são as mesmas peças que
construíram aquele homem angustiado e lhe revelaram uma existência cheia de
horrores. Essas peças ou tijolos são na verdade, os acontecimentos de sua vida.
A morte do pai na Segunda Guerra Mundial, a proteção em excesso por parte da
mãe, um casamento entediante que leva sua esposa a o trair e, principalmente,
sua insatisfação com a condição da existência humana.
Em
“A Náusea”, de Jean Paul Sartre, o personagem Antoine Roquentin passa a sentir
uma aversão à existência humana e, esse niilismo o leva a beira da loucura. Ele
constata que a vida em si não possui uma essência, e que esta só é obtida
através de artifícios e ilusões. Em The Wall, Pink chega à mesma conclusão de
Antoine, mas percebe que todos os artifícios usados para dar sentido e preencher o
vazio da vida, a tornam mais ainda sem sentido e são tijolos que vão aumentar o
seu muro.
De
acordo com Albert Camus, o sentimento de absurdo na existência humana é
fundamentado na incompatibilidade entre os desejos do homem e sua quase nula capacidade de realiza-los. Queremos um
mundo justo, mas não é isso que temos, afinal o conceito de justiça de uma
pessoa ou grupo não é o mesmo do outro. Além da justiça, estamos sempre á
procura de algo, sempre querendo mais e mais. E muitas vezes, nem sabemos o
quê. Tudo o que queremos é preencher o
vazio da existência. É isso que Pink quer saber quando, em um dos momentos do
filme, pergunta: “O que devemos usar para preencher esses espaços
vazios?”. Mas, como eu disse no
parágrafo acima, Pink chega á conclusão que qualquer artifício usado para
preencher o vazio, aumenta mais ainda o seu muro e sua aversão á existência.
Sentimos
bem quando obtemos algo que desejamos (um emprego, um bem material, uma vaga na
Faculdade, começamos um namoro, o nascimento de um filho, etc) e nos sentimos
mal quando perdemos algo que amamos ou precisamos (um ente querido que morre,
um bem material que estraga ou é roubado, um relacionamento que termina, a
demissão de um emprego, etc). Sentimo-nos mal também, quando adquirimos o que
não queremos ou temos dificuldade em nos livrar de algo que nos incomoda (uma
doença, um vício, um vizinho barulhento, um emprego desagradável, um
relacionamento desgastado), afinal nem sempre é fácil rejeitar ou dar um basta
numa situação.
Ao sentimento de "bem-estar",
damos o nome de felicidade e chamamos de infelicidade, o sentimento de "mal-estar". Porém, tanto a felicidade quanto a infelicidade são sentimentos
momentâneos. Dizer que alguém é feliz é tão fantasioso quanto acreditar que
alguém é infeliz. Tanto a felicidade quanto a infelicidade depende de uma
realização (o bem para uma e o mal para outra). Afinal, não são apenas sonhos
que se realizam; pesadelos também. Como esses sentimentos de realização não
ocorrem a todo o momento, o ser humano se depara com outro sentimento, que é o
vazio. O vazio é, absurdamente, o sentimento sem sentido (nonsense) e é dele que Pink tenta fugir.
O protagonista de The
Wall prefere viver num mundo sombrio e atormentado pelos fantasmas de seu
passado após constatar que nada preenche o vazio da existência. Para ele, a
realidade atual com riquezas, fama e luxúria, é muito pior que o seu passado de
dor, onde convivia com as dificuldades de um país tentando se reerguer após a
guerra, a falta de uma figura paterna em sua criação, as dificuldades
financeiras e a educação numa escola, onde professores tiranos aliviavam suas
dores emocionais castigando e zombando dos alunos. Mas, se no passado ele
convivia com o horror, pelo menos tinha o sonho de que um dia seria feliz e
acreditava que para isso bastava ter uma vida diferente quando se tornasse
adulto. Porém ao alcançar o sucesso, se tornar rico e conquistar a mulher
amada, Pink percebe que a realização de seus sonhos não preenchem seu vazio
existencial e passa a procurar outros artifícios, como drogas, para tentar ao
menos disfarçar sua dor perante a realidade. Ao contrário de quando era
criança, ele não tem mais sonhos e nem esperança de que encontrará um sentido
para a vida. “The child has grown, the dream has gone, and I have become
comfortably numb (A criança cresceu, o sonho acabou e eu me tornei
confortavelmente entorpecido- trecho de Comfortably Numb, uma das canções da
Ópera Rock e do Álbum The Wall)”.
Por que estamos buscando
constantemente algo que nos dê sentido e que nos satisfaça, mas sempre voltamos
ao vazio? Essa resposta foi respondida, indiretamente, por Aristóteles em sua
Metafísica. Como todos os seres (com exceção da Causa Primeira), o ser humano
também é um ato (forma ou condição atual, o que é) em potência (transformação,vir
a ser), sendo assim ele sempre vai sentir necessidade de alterar sua condição
atual. De acordo com Nietzsche, “a vida aspira a um sentimento máximo de
potência”. Porém, a impossibilidade de alcançar o nível desejado de potência,
gera angústias e aflições na pessoa e ela passa a negar a realidade e afirma outro
mundo que acredita que a satisfará.
Pink, ao constatar sua
impossibilidade de alcançar seu nível de potência, nega sua condição atual e se
afirma no seu mundo passado que o atormenta, mas também lhe permite almejar
mais potência. Porém nem sempre lhe é permitido viver no seu microcosmo sombrio
e confortável. Quando é extremamente necessário, ele atravessa seu muro e se
depara com o macrocosmo, do qual ele sente náuseas. Para enfrentar a realidade
ele se despe daquele disfarce de homem frágil e derrotado pela existência e se
protege usando o uniforme do preconceito e da intolerância, acreditando que
dessa forma conseguirá escapar da nonsense da vida e finalmente realizar sua
potência máxima. Mas acaba constatando que esse sentimento de superioridade o
torna um ser mais inferior ainda. Em seus delírios, ele se torna um nazista e
comete várias atrocidades, mas ao retornar a realidade se encontra em uma
condição pior que a anterior. Muito mais angustiado e vencido, ele aparece em
um banheiro apoiado no vaso sanitário. Ou seja, agora, usando uma linguagem
chula, ele se sente como a própria merda. Porém agora ele não quer mais fugir
da realidade e chega á conclusão de que precisa sair de seu mundo tenebroso e
para isso é necessário um auto julgamento.
Ao fazer uma reflexão
sobre sua vida, Pink constata que ele é o principal responsável pela situação
em que vive e se a vida e as pessoas lhe causaram sofrimento, ele foi, também,
responsável pelo sofrimento de outros. O auto julgamento o leva a concluir que
ele é o culpado, e como tal precisa ser punido. Sua sentença é destruir o muro
que o separa de seus semelhantes e encarar o Absurdo da realidade.
Essa punição ,na
verdade, é a revolta, a solução contra o Absurdo, proposta por Camus em “O Mito
de Sísifo”. É o homem diante de si mesmo e de sua própria escuridão, é o contrário
da renúncia e do suicídio. É viver o máximo que a natureza nos permitir,
estando ciente de nossas limitações. Só assim, é possível suportar e
compreender esse conjunto de sentimentos sem sentido chamado VIDA.
SARTRE, Jean Paul. A Náusea. Tradução
de Rita Braga. São Paulo. Ediouro, 2006.
FERREIRA, Amauri. Introdução á
Filosofia de Nietzsche. (Disponível em: http://www.amauriferreira.blogspot.com/.
Acesso em O7 de Fevereiro de 2013 ás 22h00min)
Filosofia é coisa de gente grande,e você,como um gigante,conseguiu enxergar através de um caleidoscópio,o branco e o preto.A luz e a sombra,tirando então,com lucidez e perspicácia,sentimentos mistos Filosofia é coisa de gente grande,e você,como um gigante,conseguiu enxergar através de um caleidoscópio,o branco e o preto.A luz e a sombra,tirando então,com lucidez e perspicácia,sentimentos mistos e tão fortes,com simplicidade e verdade.
ResponderExcluirE,se falando de felicidade ou a falta de,retirou exatamente a essência do contexto.As dúvidas,as dores,o ópio e a a utopia de vivenciar tudo isso.
O seu caminho é esse! Trilhe firmemente e alcance beeem longe.Lá,onde a SUA vontade certamente encontrará a tal felicidade.
Cada vez mais me encanto com seus textos e com o seu jeito de ser.
Parabéns e que venham mais textos e encantos!e tão fortes,com simplicidade e verdade.
E,se falando de felicidade ou a falta de,retirou exatamente a essência do contexto.As dúvidas,as dores,o ópio e a a utopia de vivenciar tudo isso.
O seu caminho é esse! Trilhe firmemente e alcance beeem longe.Lá,onde a SUA vontade certamente encontrará a tal felicidade.
Cada vez mais me encanto com seus textos e com o seu jeito de ser.
Parabéns e que venham mais textos e encantos!