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segunda-feira, 9 de junho de 2014

Crime e Castigo- Dostoiévsky

   
APRESENTAÇÃO DO AUTOR E DA OBRA
Por: Marcelo Maia Gomes

      Fiódor Mikhailovich Dostoiévsky (* Moscou- 11 de novembro de 1821 + São Petersburgo- 9 de fevereiro de 1881 ), um dos maiores romancistas russos é, também, considerados por muitos, o fundador do existencialismo.Sua obra retrata a humilhação e a autodestruição humana, analisando estados patológicos que levam o ser humano á loucura, ao suicídio e ao homicídio. As ideias de Dostoievsky influenciaram filósofos (especialmente os existencialistas ), teólogos e vários campos da psicologia. Crime e Castigo, publicado originalmente em 1866, apresenta ao leitor um homem frustrado em busca da grandiosidade humana, muito pregada na Rússia, na segunda metade do século XIX.
      Ródion Ramanovich Raskólnikov é um estudante de Direito, que vive em São Petersburgo, ás custas da mãe e da irmã, que do interior lhe enviam dinheiro para os estudos e demais despesas. Para complementar a renda, Raskólnikov faz algumas traduções, ganhando muito pouco. A ajuda financeira que recebe da família e o dinheiro que ganha com seu trabalho não são suficiente. Ele vive precariamente, morando de aluguel em um pequeno apartamento e muitas vezes não tem sequer o que comer.
     A situação financeira do Raskólnikov o faz se sentir um ser sub-humano, ao contrário do homem extraordinário que tanto almeja ser. Acreditando que resolveria seus problemas, ele comete um latrocínio, matando também, a irmã da vítima, que testemunhou o crime.
      No entanto, o crime cometido por Raskólnikov em vez de transformá-lo em um homem extraordinário o faz sentir pior que antes. Agora, além dos problemas financeiros e de sua baixa autoestima, ele precisa enfrentar sua própria consciência, que ao mesmo tempo deseja e teme a punição pelo seu erro.  Ler “Crime e Castigo” faz o leitor pensar se vale tudo em busca de um sentido para vida. 

ANÁLISE LITERÁRIA( COM SPOILERS).
Por: Marcelo Maia Gomes

          Independentemente do motivo, qualquer pessoa que tira a vida de outra é um assassino; até mesmo aqueles que matam para proteger sua nação, sua própria vida ou a de um ente querido. Alguns assassinos são chamados de criminosos e outros de heróis. Em "Crime e Castigo",  Raskólnikov, o protagonista da obra de Dostoievsky é um homem frustrado que pratica um crime banal acreditando que isso o tornaria um ser grandioso e eternizado como foram Napoleão, Júlio César, Alexandre, o Grande, entre outros que entraram para a história por suas conquistas e pelos crimes cometidos para alcançar seus objetivos.
      Raskólnikov é um homem, cuja arrogância interna não concorda com sua situação externa. Insatisfeito com a vida que leva, ele quer fazer algo que o torne um homem extraordinário.
     Aliona Ivânovna é uma senhora já idosa, uma agiota que cobra juros altíssimos. Como numa loja de penhores, ela fica com algum objeto de valor de seus “clientes”, como garantia para receber o que lhe devem.  Raskólnikov é um dos que recorrem á Aliona para conseguir dinheiro, empenhando as poucas coisas que possui como um anel e um relógio de prata, que herdara de seu pai.
     A agiota pagava muito menos do que valia aquilo que estava sendo penhorado. Dessa forma, estava sempre lucrando; quer seja com os juros pagos pelo devedor ou pela venda do que foi deixado como garantia. Além disso, ela explorava Lisavieta, sua irmã mais nova, obrigando-a a fazer os serviços domésticos, e tomando lhe todo o dinheiro, conseguido ás custas de faxinas que fazia em outras casas. Não eram raras, as vezes em que Lisavieta era espancada por sua irmã mais velha.
     Aliona representa o sistema capitalista, criticado por Dostoiévsky. Aproveita-se da fraqueza das pessoas para se fortalecer. Ela, apesar da idade, ainda controla e explora os necessitados ( situação que representa o capitalismo, que na segunda metade do século XIX , já era considerado por muitos russos como obsoleto, mas que ainda dominava o país ).
      Raskólnikov acredita que latrocinar Aliona, além de resolver sua situação financeira, estaria cometendo um ato nobre, o que o faria se sentir tão extraordinário como os grandes homens da história. Livraria o mundo de uma pessoa má, que abusa de suas condições para explorar os necessitados.
    No entanto ao cumprir o que acreditava ser sua honrosa missão no mundo, matando e roubando Aliona, Raskólnikov mata também Lisavieta que é tão explorada pela agiota quanto ele. Embora "Crime e Castigo" tenha sido publicado 51 anos antes da Revolução Russa, podemos comparar a morte de Lisavieta com a morte de vários inocentes durante os conflitos que derrubaram a monarquia czarista na Rússia.
   Se antes do crime, Raskólnikov se sentia um ser, cuja existência não representava, passa a se sentir atormentado tanto pela culpa e pelo medo como por não ter alcançado seus objetivos: resolver sua situação financeira e se tornar um herói. Ao contrário, passa a se sentir tão inescrupuloso como era sua vítima. Além disso, ele nem mesmo usufrui do que roubou, já que esconde tudo debaixo de uma pedra.
   Se Aliona representa o capitalismo, seu assassino representa a vítima do sistema. Não aquela vítima que quer se libertar da exploração, mas a que quer se tornar tão ou mais poderosa que seu opressor. No entanto, o crime o tornará mais fraco. Sua essência deixa de ser a frustração por não ser extraordinário e passa a ser o tormento por não alcançar sua meta e o medo de ser descoberto por ter cometido um crime que não resolveu nenhum de seus problemas.
   O niilismo leva o homem á duas consequências: a de viver atormentado por um pessimismo crônico ou á busca de um significado para a existência. Raskólnikov se sentia um “nada”, um ser inútil para a humanidade. Ambicionava o sucesso e um sentido para sua vida. Matar  e roubar não lhe proporcionaram nenhuma dessas coisas.
    Dostoiévsky cria seu personagem baseando se no dualismo cristão, mostrando o homem constituído pelas camadas do Bem e do Mal. Além de ser atormentado psicologicamente  pelo medo das leis mundanas, Raskólnikov é condenado espiritualmente por suas convicções religiosas.
      A intenção de Dostoievsky não foi criar um romance policial, onde o crime é o tema central da trama. O escritor russo procura abordar as complicações que um ato causa a alma humana. O pior castigo de um crime nem sempre é a privação da liberdade física, mas o tormento de suas consequências, que priva a consciência de um raciocínio livre.
     Em um diálogo com a prostituta Sônia, Raskólnikov atormentado pela culpa e pelo frustração por não atingir sua meta, diz que na verdade não matou a velha, mas a si mesmo. Ela, então, aconselha o assassino a confessar o crime á polícia e se arrepender perante Deus. Só assim, ele voltará a viver.
         Sônia, uma mulher que se prostitui para ajudar a família, torna-se  um abrigo para a consciência atormentada de Raskólkinov e passa a representar um sentido para a vida dele, pois o ama e cria nele a esperança de que o mundo pode ser melhor. Ao mesmo, ser amado por outras pessoas atormenta ainda mais a consciência do personagem, pois as consequências de seus erros afetam também aqueles que o querem bem.
    Tentando aliviar sua angústia, Raskólnikov segue o conselho de Sônia e se entrega à polícia. Condenado a oito anos de trabalhos forçados na Sibéria, ele questiona por que é considerado criminoso por dois homicídios enquanto aqueles que mataram milhões são chamados de heróis. Percebemos, então, que a privação de sua liberdade o faz pensar muito mais na frustração de não ter conseguido se tornar um homem extraordinário do que se arrepender por ter assassinado duas mulheres. 
    Perguntava-se também por que insistia em viver, ao invés de se matar. Não entendia como os demais presos pareciam amar a vida, mesmo nas condições em que viviam. Talvez, por isso sentia que sofria mais que os outros; não suportava sua existência, mas não tinha coragem e nem vontade de dar um fim a ela. Talvez, por ter como a luz no fim do túnel a existência Sônia, que o visita frequentemente e mais tarde passa a viver com seu amado no presídio. É o amor de Sônia que renova Raskólnikov e o transforma em um homem que sente vontade de viver e que finalmente se arrepende e se redime de seus erros. 
    A intenção de Dostoievsky em "Crime e Castigo" é  mostrar ao leitor que o erro não soluciona os problemas; ao contrário, traz tormentos causados pelo medo e pela culpa. Nos capítulos finais, a obra do romancista russo apresenta como remédios para o pecado a confissão, o arrependimento e o amor.

Um comentário:

  1. A auto punição é diferente de reconhecer o erro. Enquanto na auto punição a pessoa se preocupa em punir se por algo praticado, no reconhecimento do erro ela se preocupa em reverter os resultados negativos. Eu acredito que ambos os caminhos se enquadram na categoria do arrependimento mas pessoalmente não acredito que seja a melhor maneira de lidar com o erro, aliás, quem pode dizer com certeza o que é certo? Certo porque? Certo pra quem?

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